Erechim - A Universidade Regional Integrada (Uri) aprovou o curso de Bacharelado em Bruxaria na sua última reunião do Conselho Universitário (Consul). O curso deverá ser oferecido no câmpus de Erechim. A Uri afirma que já tem toda estrutura pronta para atender a demanda, inclusive com salas de aulas especiais para as disciplinas de alquimia, confecção de poções mágicas e manufatura de varinhas de condão. A universidade espera contar com o apoio do Ministério da Educação (Mec), uma vez que o curso será oferecido em parceria com a Hogwarts School of Witchcraft and Wizardry, a escola de magia e feitiçaria famosa pelas obras cinematográficas da série Harry Poter. "Estamos só aguardando a liberação do Mec. Falta pouco. Vamos oferecer um curso de qualidade, com toda a estrutura que a região merece para atender a demanda carente de bruxos no mercado", disse um dos diretores da Uri.
Ijuí - A Universidade do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí) não poupa esforços para que o Ministério da Educação autorize de uma vez por todas o curso Preparatório de Astronautas e Cosmonautas. Na elaboração do currículo, a Unijuí contou com a colaboração de professores vindos diretamente da Agência Espacial Americana (Nasa). A universidade tem por objetivo colocar a primeira turma de astronautas brasileiros no espaço em 2045. Assim, como o futuro curso de medicina, não há professores para o curso ligado à área espacial. Também não existe ainda laboratórios e centro de treinamento. A Unijuí quer criar a demanda para, depois, pensar nesses problemas menores. "O curso terá duração de quatro anos, como uma graduação normal. O Mec está criando problemas burocráticos e sedendo à pressão das entidades protecionistas. Os astronautas americanos estão com medo de perder mercado para nós", salientou o Dr. Allun Ucinado, professor indiano, contratado para presidir o comitê pró-curso de astronautas da Unijuí.
Santo Ângelo/Londres - O prefeito municipal de Santo Ângelo, Valdir Andres, recém eleito presidente da Federação dos Municípios, confirmou: o Instituto Cenecista de Santo Ângelo (IESA) está apto para ofertar vagas no novo curso de Bacharelado em Inteligência Secreta. O curso formará agentes secretos especiais. Serão profissionais de padrão internacional, assim como James Bond, já escolhido paraninfo da primeira turma. O curso que será oferecido pela IESA está sendo elaborado em parceria com o MI6, o Secret Intelligence Service, ligado diretamente a Coroa Britânica. Os agentes secretos formados atenderão as demandas local e regional. "Sentimos que os profissionais da área estão se concentrando nas capitais do Brasil por pura birra. Santo Ângelo também é uma capital, a Capital Missioneira! Paramos de conversar fiado com o Mec. O curso foi negociado diretamente entre Santo Ângelo e Londres, mais especificamente o Palácio de Buckingham. O pedido para iniciar a atividade do curso o quanto antes foi feito pela Vossa Majestade em pessoa. E vamos atender, independente das determinações de Brasília. Não queremos uma crise diplomática, queremos?", observou, em tom de interrogação, Andres.
* Todas as notícias publicadas nessa postagem são mentiras destrambelhadas. As informações transcritas aqui resultam de expectativas bairristas e foras da realidade. Trata-se da falta de capacidade jornalística em separar delírios doentios e realidade. O resultado disso é o famoso "declaracionismo", primo pobre e sem estrutura do jornalismo sério. Sabemos que o leitor não cai nessas anedotas. No entanto, as publicamos mesmo assim. Acreditamos cegamente na falta de capacidade intelectual do nosso consumidor final. No Capeta, a gente também sacaneia o leitor, mas pelo menos, avisa.
quarta-feira, 22 de maio de 2013
domingo, 19 de maio de 2013
Inquebrável
A ideia foi batizada de "Projeto Inquebrável", uma tradução literal de project unbreakable. As imagens foram feitas para doer. Nelas, as vítimas, no geral mulheres, mostram para os nossos olhos, de próprio punho, aquilo que não sai das suas mentes.
Na foto que eu escolhi, diz o seguinte: "Seus pais saíram para jantar. Não se preocupe. Eu cuido de você".
sexta-feira, 17 de maio de 2013
Se dando bem em três [novos] passos
Uma das coisas que eu mais gostava de fazer há uns cinco anos atrás, quando trabalhava diretamente na redação de jornal e rádio, era atender as crianças. Sério! Adoro crianças. Só tenho jeito, voz e biotipo de ranzinza. Só. No mais, até de crianças eu gosto. Semanalmente, escolas da cidade resolviam visitar o jornal para "apresentar" aos alunos onde se "fazia" a notícia. Era fabuloso. Todo empolgado, para cada 10 frases que eu falava, umas sete eram destinadas à "importância de estudar", os "fundamentos da leitura", "vencer com honestidade" e outras bazingas e whiskas sachês.
Juro que não era hipocrisia da minha parte. Eu acreditava naquilo.
Hoje, com toda certeza, sou o cara mais desaconselhável para ficar perto de crianças ou adolescentes. Para repetir o mesmo discurso, eu precisaria ser extremamente hipócrita. Houvesse um dicionário ilustrado com o adjetivo desiludido, estaria minha foto lá.
Meus conselhos para as crianças de hoje são:
a) não estude. Arrume amigos convenientes. Mesmo que tenha que estar rodeado de pessoas insuportáveis, procure um jeito de tirar proveito em tudo. As amizades são a porta de entrada para apadrinhamentos confortáveis e rentáveis. Lembre-se: ganhar dinheiro = vencer na vida. Estudar é apenas a mais venerável das terapias ocupacionais;
b) não seja imbecil para ser intelectualmente honesto. Tudo que você precisa saber sobre a vida consiste em repetir os discursos politicamente corretos apresentados na novela das nove. O folhetim global é um resumo sensato e equilibrado de todos os mantras socialmente agradáveis aos ouvidos públicos. Preste atenção nesses detalhes. Pouco importam os negros, homossexuais ou as prostitutas, contanto que você saiba que é fundamental advogar publicamente a favor das 'minorias'. De preferência, mantendo-as longe. O importante é parecer politicamente correto. Não precisa ser. Não significa que você tenha que convidar um homossexual para jantar. A não ser que ele possa lhe ser útil, claro. Separe seu lixo sempre. Faça uma composteira. Essas coisas pegam superbem para manter a máscara de bacana, além de ajudarem com o passo seguinte:
c) fique com a consciência eternamente limpa. O melhor modo de fazer isso é acreditar em Deus. Por que se sentir culpado por querer se dar bem? Alguém não quer? Acreditar em Deus significa exatamente isso: trocar todas as dúvidas sobre seus próximos sentimentos pela certeza de uma vida melhor e eterna. Seja otimista com relação aos seus sentimentos e a imagem do futuro que eles projetam. O otimismo é o principal sinal da falta de caráter. A falta de caráter é o principal sinal da objetividade de suas pretensões megalomaníacas no mundo. Se você não conseguir acreditar em Deus, faça o que eu já falei: separe o lixo e monte uma composteira. Comprar uma bicicleta também ajuda a manter a consciência limpa. Mantenha um sorriso "honesto" e otimista com relação às suas ações no mundo. O otimista é o hipócrita nativo.
Juro que não era hipocrisia da minha parte. Eu acreditava naquilo.
Hoje, com toda certeza, sou o cara mais desaconselhável para ficar perto de crianças ou adolescentes. Para repetir o mesmo discurso, eu precisaria ser extremamente hipócrita. Houvesse um dicionário ilustrado com o adjetivo desiludido, estaria minha foto lá.
Meus conselhos para as crianças de hoje são:
a) não estude. Arrume amigos convenientes. Mesmo que tenha que estar rodeado de pessoas insuportáveis, procure um jeito de tirar proveito em tudo. As amizades são a porta de entrada para apadrinhamentos confortáveis e rentáveis. Lembre-se: ganhar dinheiro = vencer na vida. Estudar é apenas a mais venerável das terapias ocupacionais;
b) não seja imbecil para ser intelectualmente honesto. Tudo que você precisa saber sobre a vida consiste em repetir os discursos politicamente corretos apresentados na novela das nove. O folhetim global é um resumo sensato e equilibrado de todos os mantras socialmente agradáveis aos ouvidos públicos. Preste atenção nesses detalhes. Pouco importam os negros, homossexuais ou as prostitutas, contanto que você saiba que é fundamental advogar publicamente a favor das 'minorias'. De preferência, mantendo-as longe. O importante é parecer politicamente correto. Não precisa ser. Não significa que você tenha que convidar um homossexual para jantar. A não ser que ele possa lhe ser útil, claro. Separe seu lixo sempre. Faça uma composteira. Essas coisas pegam superbem para manter a máscara de bacana, além de ajudarem com o passo seguinte:
c) fique com a consciência eternamente limpa. O melhor modo de fazer isso é acreditar em Deus. Por que se sentir culpado por querer se dar bem? Alguém não quer? Acreditar em Deus significa exatamente isso: trocar todas as dúvidas sobre seus próximos sentimentos pela certeza de uma vida melhor e eterna. Seja otimista com relação aos seus sentimentos e a imagem do futuro que eles projetam. O otimismo é o principal sinal da falta de caráter. A falta de caráter é o principal sinal da objetividade de suas pretensões megalomaníacas no mundo. Se você não conseguir acreditar em Deus, faça o que eu já falei: separe o lixo e monte uma composteira. Comprar uma bicicleta também ajuda a manter a consciência limpa. Mantenha um sorriso "honesto" e otimista com relação às suas ações no mundo. O otimista é o hipócrita nativo.
terça-feira, 14 de maio de 2013
A supervalorização da família é nossa herança maldita.
A supervalorização da família é nossa herança maldita. Não conseguimos superar as coisas mais ridículas pregadas pela igreja durante a baixa idade média. Sobre a santificação da maternidade já falei. Mais violenta que a ideia maternal é a valorização desproporcional da presença familiar na vida das pessoas. Realmente, a figura da família protetora ou desestruturada é a imagem do determinismo psicológico que define quem nós somos e quem nós seremos.
Conseguimos, sim, avanços significativos. Pessoas de tom politicamente correto, alteraram seu conceito do que é uma família. Incluíram, arbitrariamente mas com razão, casais do mesmo sexo. Admitiram que não existe problema em crianças criadas por homossexuais e estão convencidos de que a família nuclear (papai, mamãe e filhinhos) pode ser substituída por outros regimes parentais de proteção. No entanto, mantem-se a ideia central: a família é importante na formação do indivíduo. Essa bobagem é reproduzida pelos pedabobos de plantão. Os seguidores da religião capitaneada por Paulo Freire incluíram, descuidadamente, no seu repertório de idiotices, como num acidente histórico qualquer, a importância da família na educação das pessoas. Especialmente, pensam eles, falam da importância da família na formação das pessoas em miniatura, conhecidas em tempos menos desonrosos como crianças.
A importância da família na formação dos indivíduos é algo que remonta ao período feudal. A família era a administradora da propriedade que, em muitos casos, incluía outras famílias. Restou disso tudo a calhordagem: imaginamos que as condições dispostas na infância têm alguma relevância na formação do caráter individual. Não educamos as crianças para se desenvolverem como indivíduos, mas como membros importantes da alcateia. Mais tarde eles devem fazer o mesmo com suas pessoas em miniatura; e assim sucessivamente porque, pensam, o coletivo é muito mais importante para o desenvolvimento constante da empresa. O resultado disso está aí. Sequelados de toda ordem.
Grupo nenhum, sociedade alguma, nem o universo inteiro é mais importante que um indivíduo.
Do feudalismo familiar, enxotamos as ideias de honra e manutenção da palavra dada e mantivemos aquilo que havia de ruim. Simplesmente não conseguimos compreender a importância de um retorno aos elementos do mundo antigo. Houvesse espaço para uma nova renascença descobriríamos que o indivíduo é único demais para ser influenciado pelo senso de manada coletivo de uma família.
Conseguimos, sim, avanços significativos. Pessoas de tom politicamente correto, alteraram seu conceito do que é uma família. Incluíram, arbitrariamente mas com razão, casais do mesmo sexo. Admitiram que não existe problema em crianças criadas por homossexuais e estão convencidos de que a família nuclear (papai, mamãe e filhinhos) pode ser substituída por outros regimes parentais de proteção. No entanto, mantem-se a ideia central: a família é importante na formação do indivíduo. Essa bobagem é reproduzida pelos pedabobos de plantão. Os seguidores da religião capitaneada por Paulo Freire incluíram, descuidadamente, no seu repertório de idiotices, como num acidente histórico qualquer, a importância da família na educação das pessoas. Especialmente, pensam eles, falam da importância da família na formação das pessoas em miniatura, conhecidas em tempos menos desonrosos como crianças.
A importância da família na formação dos indivíduos é algo que remonta ao período feudal. A família era a administradora da propriedade que, em muitos casos, incluía outras famílias. Restou disso tudo a calhordagem: imaginamos que as condições dispostas na infância têm alguma relevância na formação do caráter individual. Não educamos as crianças para se desenvolverem como indivíduos, mas como membros importantes da alcateia. Mais tarde eles devem fazer o mesmo com suas pessoas em miniatura; e assim sucessivamente porque, pensam, o coletivo é muito mais importante para o desenvolvimento constante da empresa. O resultado disso está aí. Sequelados de toda ordem.
Grupo nenhum, sociedade alguma, nem o universo inteiro é mais importante que um indivíduo.
Do feudalismo familiar, enxotamos as ideias de honra e manutenção da palavra dada e mantivemos aquilo que havia de ruim. Simplesmente não conseguimos compreender a importância de um retorno aos elementos do mundo antigo. Houvesse espaço para uma nova renascença descobriríamos que o indivíduo é único demais para ser influenciado pelo senso de manada coletivo de uma família.
sábado, 11 de maio de 2013
Revisor
Eu adoro esse tipo de coisa. Algumas empresas são a verdadeira vanguarda da retaguarda. Hoje vi uma vaga de revisor em um jornalão. Não julgo que meu famigerado nome possa ser cogitado. Inscrevi-me pelo interesse dos caras em fazer um processo de contratação diferenciado. Sem currículo. Sem carta de apresentação. E sem aquelas coisas que todo mundo pede e não servem para nada. Pediram um texto com um tema: "sua experiência como revisor". Tá aí, oh:
Ser
revisor é a única profissão editorial que transforma alguém desconhecido e
irrelevante em uma mistura de deus e demônio. A prova da onipresença do revisor
está ligada ao fato da exigência de revisores para revisar os textos dos
revisores. “Todo mundo precisa ser revisado”, diz a norma tácita em qualquer
redação. Escritor apegado ao próprio texto ganha imediatamente o título de
ruim. Repórter bom nunca é o último responsável pelo que escreve. Não há
notícia de um escritor bom sem um revisor de navalha afiada e retidão textual.
Seja na revisão literária ou na padronização exigida pelas redações dos
periódicos, o revisor é o mais amado e criticado dos profissionais do texto.
Seu nome não tem destaque algum e suas opiniões são importantes apenas quando
ganham pouca publicidade. Revisor bom trabalha em silêncio. Suas alterações já
são barulhentas por conta própria.
A
regra manda frases curtas e objetivas. O gênio ignora as regras para criar.
Como teria sido a vida de Gabriel García Márquez sem a dureza dos revisores? O
que passaria pela mente de um revisor ao se deparar com uma frase de sete
páginas, publicada em Cem Anos de Solidão? Muita discussão teórica e inútil
deve ter sido travada sobre alterações inaplicáveis ou urgentes da grande obra
épica colombiana. Posteriormente, centenas de páginas foram desperdiçadas em
artigos acadêmicos que jamais serão lidos debatendo a genialidade inexplicável.
Nem uma vírgula terá como objeto de preocupação a riqueza da sensibilidade dos
revisores subversivos. Gênios do quilate de Gabo subvertem as regras para se
sobressaírem, entre os medíocres. Revisores desesperados se preocupam com as
regras porque são subvertidos pela natureza do seu trabalho. Esperar
valorização em um ambiente desses é como tentar brilhar mais que o sol. Deve
haver sérias vantagens em receber o título de deus ou demônio. Algo que
ultrapasse a mera necessidade deve explicar a existência de pessoas
interessadas em fazer o trabalho sujo.
terça-feira, 7 de maio de 2013
Os gringos fazendo nosso dever de casa
Não há comentários para identificar o trabalho de Lunae Parracho em Salvador. Para variar, o fotógrafo está a serviço de uma agência gringa: Reuters. O El País publica as fotos com o título de "cultura da arma". Bobagem. Não existe culto ao armamento no Brasil. Há marginais armados e polícia armada. Só. Já é o suficiente para imagens dignas de prêmios e mais prêmios.
domingo, 5 de maio de 2013
A Tentação
Câmeras, luzes, texto.
A Tentação, de Matthew Chapman (2011), é um filme do ateísmo militante e quase religioso. O herói é um ateu suicida. Algo bastante raro aliás e que chama atenção logo no início do baralho. Na medida em que as cartas vão caindo, a gente vai compreendendo os motivos da tentativa de suicídio. Na outra ponta da corda, está o ator-chorão Terrence Howard. Gosto dele desde Crash, no Limite (2004). Pois não é que o cara parece estar sempre choramingando? Até quando faz cara de mau, tem jeito de frangalhão. Tadinho. Pelo menos dessa vez, faz um papel digno: um corno.
Tentação é um romance bastante inusitado. Na medida do possível, ensina que todo homem sempre será um corno-em-potencial. Mas o filme entende que ninguém vai entender isso. Então, já deixa essa proposta fracassada de lado no começo. O ateu do filme tenta ser convertido por um cristão ultra-mala. Daí, resolve salvar a mulher do cara fazendo o que os crentes só fazem para procriar. Dito e feito. Acaba tentando se suicidar no parapeito de um prédio. Quem é chamado para ajudar, é um policial, também crente, mas não ortodoxo, que acaba de descobrir que seus dois filhos não são seus. Então, imagina o bailado do cusco em procissão.
O final do filme tenta ser surpreendente. Mas não rola. Mais previsível impossível. Mesmo assim, vale a pena assistir. É, definitivamente, uma tentativa ateísta que busca converter cristão ultra-malas. Tentar converter é uma ideia idiota sempre. Mas são tantos filmes cristão feitos para catequizar que acaba valendo a pena assistir esse. Mesmo que seja apenas contrapeso. Definitivamente, apenas uma tentativa de fazer filosofia no cinema. Mas com um roteiro arrumadinho, apesar de superficial.
Sem mais, meritíssimo.
A Tentação, de Matthew Chapman (2011), é um filme do ateísmo militante e quase religioso. O herói é um ateu suicida. Algo bastante raro aliás e que chama atenção logo no início do baralho. Na medida em que as cartas vão caindo, a gente vai compreendendo os motivos da tentativa de suicídio. Na outra ponta da corda, está o ator-chorão Terrence Howard. Gosto dele desde Crash, no Limite (2004). Pois não é que o cara parece estar sempre choramingando? Até quando faz cara de mau, tem jeito de frangalhão. Tadinho. Pelo menos dessa vez, faz um papel digno: um corno.
Tentação é um romance bastante inusitado. Na medida do possível, ensina que todo homem sempre será um corno-em-potencial. Mas o filme entende que ninguém vai entender isso. Então, já deixa essa proposta fracassada de lado no começo. O ateu do filme tenta ser convertido por um cristão ultra-mala. Daí, resolve salvar a mulher do cara fazendo o que os crentes só fazem para procriar. Dito e feito. Acaba tentando se suicidar no parapeito de um prédio. Quem é chamado para ajudar, é um policial, também crente, mas não ortodoxo, que acaba de descobrir que seus dois filhos não são seus. Então, imagina o bailado do cusco em procissão.
O final do filme tenta ser surpreendente. Mas não rola. Mais previsível impossível. Mesmo assim, vale a pena assistir. É, definitivamente, uma tentativa ateísta que busca converter cristão ultra-malas. Tentar converter é uma ideia idiota sempre. Mas são tantos filmes cristão feitos para catequizar que acaba valendo a pena assistir esse. Mesmo que seja apenas contrapeso. Definitivamente, apenas uma tentativa de fazer filosofia no cinema. Mas com um roteiro arrumadinho, apesar de superficial.
Sem mais, meritíssimo.
sexta-feira, 3 de maio de 2013
Tipo Net
Internet no interior é assim: tipo Net.
Não existem portas para instalação de banda larga. Não existem cabos para transportar a informação por fibra óptica. Não existe conexão estável. Contratar mais banda significa rasgar dinheiro, porque não há suporte. Internet via rádio ainda é a regra. Uma nuvem na cidade vizinha derruba a conexão de milhares de antenas, ao mesmo tempo.
Se você precisa fazer algo que ultrapasse os limites do facebook, está lascado.
No interior, toda net é tipo net: não funciona nunca.
Não existem portas para instalação de banda larga. Não existem cabos para transportar a informação por fibra óptica. Não existe conexão estável. Contratar mais banda significa rasgar dinheiro, porque não há suporte. Internet via rádio ainda é a regra. Uma nuvem na cidade vizinha derruba a conexão de milhares de antenas, ao mesmo tempo.
Se você precisa fazer algo que ultrapasse os limites do facebook, está lascado.
No interior, toda net é tipo net: não funciona nunca.
terça-feira, 30 de abril de 2013
Entonces
Faz umas duas horas que fui demitido, mais ou menos. Dez minutos antes de ser enxotado (burra palavra bonita, né?), entrevistei o ex-ministro da agricultura Alysson Paulinelli. Ele disse que a ditadura militar investia 4% do PIB em infraestrutura. Hoje não investimos meio por cento. Não é o suficiente nem para manter o que foi construído. A conta, é provável, só veio mais tarde. Conta da ditadura. Eu ainda estou pagando a minha.
Estou cada vez mais convicto de que a ausência de hombridade está acabando com nossas vidas. Ou adiantando nossas mortes diante do Facebook. Pessoalmente, acho que o reconhecimento desse problema pode salvar a minha vida, pelo menos. É tamanha a falta de caráter e o vício desvairado nessas idiotice que faltam homens de respeito no mundo. Digo isso porque todos já conversaram com tampas de notebooks. Pior: todos já ofereceram aos seus interlocutores conversas com tampas de notebooks. E isso, sinceramente, me deixa profundamente descrente na raça humana.
Agora estava conversando com um colega de profissão e falando do meu enxotamento (palavra mais bonita que o adjetivo) e notei que a falta de franqueza e olho no olho chegou ao limite do inconveniente. O motivo, por certo, não foi meu amigo. Mas uma pergunta que ele me fez: "tá, e tu foi demitido por quê?"
Ponto. Nova linha.
Sinceramente, não tinha parado pra pensar nisso antes. Para mim, foi tão natural ser demitido quanto ser contratado. E me dei uns segundos de trabalho para responder a questão do meu amigo: "Fui demitido porque fui contratado". A moça do RP assinou minha carteira e a entregou rescindida. No mesmo instante.
A resposta pode parecer falta de resposta melhor. Mas não é. Fui demitido, apenas, porque fui contratado. Não foi por falta de pautas (um repórter vive disso). Nem por falta de entrevistados (um entrevistador vive deles também). Não foi porque meu texto é ruim ou porque eu não sou ágil para a função. Fui demitido, portanto, porque não deveria ter sido contratado. Não deveria estar ali, em um ambiente absolutamente inconveniente para mim. Dei sorte é de ter sido demitido tão rapidamente. Se tivesse ficado em um lugar onde não deveria estar, seria um ridículo. Jornalista não trabalha para pagar as contas. Até porque o salário não dá nem para isso. Jornalista que trabalha para fazer média pode muito bem virar dirigente sindical. Copiar e colar letras aleatórias em papel que vai embrulhar peixe no outro dia ou falar sobre perfumaria, definitivamente, não é um trabalho que requer amparo profissional.
Volta o ponto inicial dessa coisa toda: a falta de hombridade é muito mais acentuada do que a mera ausência de olho no olho para dizer: "você não resolve tal e tal problema para mim. Portanto, vá embora". Fosse apenas isso, seria covardia e não falta de hombridade. Com covardes, podemos conviver. É difícil, mas não impossível. Já a falta de hombridade é identificada em pessoas sem a menor capacidade de assumirem compromissos sérios e dentro dos prazos adequados. A incompetência em desempenhar uma função é apenas incompetência, mas somada a falta de responsabilidade e peito aberto para resolver problemas, é falta de hombridade pura.
Eu, honestamente, não consigo viver de fazer média para pagar as contas. Prefiro pagar as contas de outra forma, como sempre fiz, e deixar a vida em stand by, até algo relevante e feito por homens se mostrar como uma oportunidade concreta.
Definitivamente, hoje o jornalismo é uma profissão onde falta hombridade. E isso não tem nada a ver com o sexo de quem está por trás da tampa do notebook.
***
Essa última experiência, fez-me lembrar de um velho texto do Gabo.
Estou cada vez mais convicto de que a ausência de hombridade está acabando com nossas vidas. Ou adiantando nossas mortes diante do Facebook. Pessoalmente, acho que o reconhecimento desse problema pode salvar a minha vida, pelo menos. É tamanha a falta de caráter e o vício desvairado nessas idiotice que faltam homens de respeito no mundo. Digo isso porque todos já conversaram com tampas de notebooks. Pior: todos já ofereceram aos seus interlocutores conversas com tampas de notebooks. E isso, sinceramente, me deixa profundamente descrente na raça humana.
Agora estava conversando com um colega de profissão e falando do meu enxotamento (palavra mais bonita que o adjetivo) e notei que a falta de franqueza e olho no olho chegou ao limite do inconveniente. O motivo, por certo, não foi meu amigo. Mas uma pergunta que ele me fez: "tá, e tu foi demitido por quê?"
Ponto. Nova linha.
Sinceramente, não tinha parado pra pensar nisso antes. Para mim, foi tão natural ser demitido quanto ser contratado. E me dei uns segundos de trabalho para responder a questão do meu amigo: "Fui demitido porque fui contratado". A moça do RP assinou minha carteira e a entregou rescindida. No mesmo instante.
A resposta pode parecer falta de resposta melhor. Mas não é. Fui demitido, apenas, porque fui contratado. Não foi por falta de pautas (um repórter vive disso). Nem por falta de entrevistados (um entrevistador vive deles também). Não foi porque meu texto é ruim ou porque eu não sou ágil para a função. Fui demitido, portanto, porque não deveria ter sido contratado. Não deveria estar ali, em um ambiente absolutamente inconveniente para mim. Dei sorte é de ter sido demitido tão rapidamente. Se tivesse ficado em um lugar onde não deveria estar, seria um ridículo. Jornalista não trabalha para pagar as contas. Até porque o salário não dá nem para isso. Jornalista que trabalha para fazer média pode muito bem virar dirigente sindical. Copiar e colar letras aleatórias em papel que vai embrulhar peixe no outro dia ou falar sobre perfumaria, definitivamente, não é um trabalho que requer amparo profissional.
Volta o ponto inicial dessa coisa toda: a falta de hombridade é muito mais acentuada do que a mera ausência de olho no olho para dizer: "você não resolve tal e tal problema para mim. Portanto, vá embora". Fosse apenas isso, seria covardia e não falta de hombridade. Com covardes, podemos conviver. É difícil, mas não impossível. Já a falta de hombridade é identificada em pessoas sem a menor capacidade de assumirem compromissos sérios e dentro dos prazos adequados. A incompetência em desempenhar uma função é apenas incompetência, mas somada a falta de responsabilidade e peito aberto para resolver problemas, é falta de hombridade pura.
Eu, honestamente, não consigo viver de fazer média para pagar as contas. Prefiro pagar as contas de outra forma, como sempre fiz, e deixar a vida em stand by, até algo relevante e feito por homens se mostrar como uma oportunidade concreta.
Definitivamente, hoje o jornalismo é uma profissão onde falta hombridade. E isso não tem nada a ver com o sexo de quem está por trás da tampa do notebook.
***
Essa última experiência, fez-me lembrar de um velho texto do Gabo.
quinta-feira, 25 de abril de 2013
Vendedores de Carros
Todo mundo com alguma noção da realidade já se deparou com uma situação tipicamente chata e desgostosa. Existem vários níveis de malas. E todos eles são insuportáveis. Na minha famigerada opinião, depois de muito observar o zoológico amplo que representa as variações de malas, cheguei a uma conclusão caríssima: o pior mala é aquele com a síndrome de vendedor de carro usado. Espero que isso receba uma classificação como doença pela Organização Mundial da Saúde.
É um mala fácil de identificar.
Trata-se daquele chato que sabe tudo. Na verdade, ele é dotado de uma capacidade surpreendente de falar detalhadamente sobre coisas que não tem a menor noção. Diante de um especialista em energia nuclear, ele sabe tudo sobre o processo de transformação dos núcleos atômicos. O cara não precisa ler nem pesquisar. Ele é uma enciclopédia ambulante a respeito de tudo. Conhece tudo e todos. Fala com o peito inflado e confiança. Pode estar num minuto citando Camões e noutro analisando a fome na Suíça.
Esse vídeo, vem bem a calhar para tipificar esse tipo de mala. Ele personifica a falta de capacidade das pessoas dizerem, simplesmente, "desculpa, não sei nada sobre isso".
Mesmo sem noção de inglês, trata-se do seguinte: a repórter vai para a rua e pergunta para as pessoas sobre a opinião delas a respeito de uma banda que não existe. Mesmo sem a menor noção do que estão falando, as pessoas mostram exímio conhecimento da tal banda.
Triste. Sem mais, meritíssimo.
É um mala fácil de identificar.
Trata-se daquele chato que sabe tudo. Na verdade, ele é dotado de uma capacidade surpreendente de falar detalhadamente sobre coisas que não tem a menor noção. Diante de um especialista em energia nuclear, ele sabe tudo sobre o processo de transformação dos núcleos atômicos. O cara não precisa ler nem pesquisar. Ele é uma enciclopédia ambulante a respeito de tudo. Conhece tudo e todos. Fala com o peito inflado e confiança. Pode estar num minuto citando Camões e noutro analisando a fome na Suíça.
Esse vídeo, vem bem a calhar para tipificar esse tipo de mala. Ele personifica a falta de capacidade das pessoas dizerem, simplesmente, "desculpa, não sei nada sobre isso".
Mesmo sem noção de inglês, trata-se do seguinte: a repórter vai para a rua e pergunta para as pessoas sobre a opinião delas a respeito de uma banda que não existe. Mesmo sem a menor noção do que estão falando, as pessoas mostram exímio conhecimento da tal banda.
Triste. Sem mais, meritíssimo.
quinta-feira, 18 de abril de 2013
Então está tudo muito asséptico
A escrita da América Latina é sentimental e boba. Deve ser por isso que a vida neste cantito faz mais sentido no âmbito literário do que poderia fazer em outras áreas mais equilibradas. Nossa total falta de rigor é de uma beleza impressionante. Deve ser por isso, também que nossos grandes escritores jamais serão liberais. O racionalismo e a sobriedade não fazem o menor sentido por aqui. A beberagem e a carniçaria, muito menos. Resta-nos admirar o que temos de melhor: sentimentos eternamente imaturos.
Sobre a imprensa:
Sobre a imprensa:
"A bateção das máquinas de escrever, a gritaria, a fumaceira dos cigarros. Isso mudou. Agora, é um universo muito mais asséptico. Se me enfio numa redação parece que estou em um hospital",Eduardo Galeano, escritor, imaturo e de fundamento.
quinta-feira, 11 de abril de 2013
A Vanguarda da Retaguarda
Estou cada vez mais convencido do seguinte: parte do trabalho da vanguarda é insistir em retomar os acertos do passado. Somos tão ingênuos que vivem um surto de modernidade. Nos olhamos nos olhos e pensamos "como é bom viver agora. Já imaginou? Eu, vivendo no passado, sem a estrutura e o conforto da tecnologia". Quando caimos nessa, recebemos, automaticamente, o título de deficientes mentais.
domingo, 7 de abril de 2013
Com Foto
Tecnicamente, ainda é domingo. Então, segundo fui informado por e-mail pelo glorioso sindicato representativo da categoria, ainda é dia do jornalista. Mas esse não foi o e-mail mais importante referente ao dia do glorioso escravo profissional da comunicação social.
Também por sinal de fumaça eletrônico, veio a seguinte imagem. Uma daquelas oportunidades em que nos orgulhamos de fazer parte da elite intelectual do Brasil.
Também por sinal de fumaça eletrônico, veio a seguinte imagem. Uma daquelas oportunidades em que nos orgulhamos de fazer parte da elite intelectual do Brasil.
Obrigado Mayara Reis, sempre solerte, pela pérola.
segunda-feira, 1 de abril de 2013
Meu primeiro dia de trabalho
Vou narrar aqui meu primeiro dia de trabalho. E seus detalhes escabrosos. Depois, quero ver vocês dizendo que eu não sou merecedor de um lugar ao sol ou, melhor: sombra e água fresca.
Saí da casa da minha irmã, onde eu estava gentilmente hospedado simplesmente 15 minutos antes do busão que me levaria à cidade vizinha sair da rodoviária. Levaria. Não levou. O miserável do meu celular é capaz de mandar um míssil para a Coréia do Norte. Mas não consegue fazer o despertador funcionar quando a bateria resolve afrouxar a guaiaca durante a madrugada.
Perdi a saída do ônibus e tive a infeliz ideia de não ir pegar o próximo. Como tinha comprado a passagem com antecedência, peguei um táxi e fui até a saída da cidade, esperar pelo busão. Resultado: o cretino do taxista demorou para chegar e vi o ônibus passando diante dos meus olhos, sem eu conseguir chegar a tempo. Coisa de 40 segundos. Raiva pura. Paguei os 30 reais para o taxista com vontade de matá-lo e resolvi ficar por ali mesmo, no trevo de saída da cidade. Já estava lascado, então, por que não esperar o próximo ônibus ali no trevo?
Foi então que eu resolvi pedir carona. Iria ter que esperar de qualquer forma! Um simpático caminhoneiro de mobília me levou até muito próximo da minha cidade de destino. De lá, esperei a próxima lotação e paguei menos pela passagem. Já havia gastado mais do que devia na viagem. Então, estava p$%! da vida. Mas tudo bem. O dia estava lindo.
Até eu torcer o pé, quando subi no ônibus.
Cheguei para me apresentar ao meu futuro patrão quase no final da manhã. Fiquei com o pé doendo três dias. Caminhei boa parte do dia com o pé doendo muito. Mas, naquela segunda-feira, tive a melhor noite de sono dos últimos seis anos.
Olhei para o azar e soltei um belo de um FO-DA-SE.
Saí da casa da minha irmã, onde eu estava gentilmente hospedado simplesmente 15 minutos antes do busão que me levaria à cidade vizinha sair da rodoviária. Levaria. Não levou. O miserável do meu celular é capaz de mandar um míssil para a Coréia do Norte. Mas não consegue fazer o despertador funcionar quando a bateria resolve afrouxar a guaiaca durante a madrugada.
Perdi a saída do ônibus e tive a infeliz ideia de não ir pegar o próximo. Como tinha comprado a passagem com antecedência, peguei um táxi e fui até a saída da cidade, esperar pelo busão. Resultado: o cretino do taxista demorou para chegar e vi o ônibus passando diante dos meus olhos, sem eu conseguir chegar a tempo. Coisa de 40 segundos. Raiva pura. Paguei os 30 reais para o taxista com vontade de matá-lo e resolvi ficar por ali mesmo, no trevo de saída da cidade. Já estava lascado, então, por que não esperar o próximo ônibus ali no trevo?
Foi então que eu resolvi pedir carona. Iria ter que esperar de qualquer forma! Um simpático caminhoneiro de mobília me levou até muito próximo da minha cidade de destino. De lá, esperei a próxima lotação e paguei menos pela passagem. Já havia gastado mais do que devia na viagem. Então, estava p$%! da vida. Mas tudo bem. O dia estava lindo.
Até eu torcer o pé, quando subi no ônibus.
Cheguei para me apresentar ao meu futuro patrão quase no final da manhã. Fiquei com o pé doendo três dias. Caminhei boa parte do dia com o pé doendo muito. Mas, naquela segunda-feira, tive a melhor noite de sono dos últimos seis anos.
Olhei para o azar e soltei um belo de um FO-DA-SE.
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